segunda-feira, 24 de novembro de 2014

   Quando criança, eu conheci e convivi com a pessoa mais elegante e digna do mundo. E tinha uns olhos tão lindos como nunca mais vi.
  Eu não exagero quando digo que ela era a pessoa mais elegante e mais digna que já existiu.
   Já estive com gente importante nesse mundo. Já andei de elevador com Bill Clinton. Já servi jantares íntimos para presidentes e reis, já estive na casa de celebridades de quilates estonteantes.  Tenho foto com Barack Obama, foto autografada do Tony Blair, tenho souvenires do Air Force One da presidência americana, levei Carla Bruni ao banheiro. Vi e ouvi coisas que jamais havia sonhado ver ou ouvir de pessoas que jamais pensei encontrar.
    Alguns simpáticos e adoráveis, outros insuportáveis. Todos habitam o Olimpo das pessoas consideradas especiais.
   Pessoas que eu considerava realmente especiais me decepcionaram, outras, para quem eu não daria a mínima atenção, me surpreenderam pela simpatia e simplicidade. O Bispo Desmond Tutu, por exemplo, me pareceu ser uma pessoa orgulhosa, cheia de si, pretensiosa, cheio de ares de superioridade.
   Eu não digo isso para me gabar de ter estado entre essas pessoas, eu era subalterno, um mero serviçal.
   É que eu queria dizer que nenhuma dessas pessoas tinha a elegância e a dignidade da Dona Julinha.
   Dona Julinha era uma mulher velha. Morava em uma casa de chão e paredes de barro, teto de sapê. A casa de Dona Julinha não tinha água encanada, eletricidade ou banheiro.
    Essa mulher caminhava com baldes no ombro para buscar água, criava sozinha muitos filhos e netos, não tinha homem ou marido e trabalhava incansavelmente.
    Durante o dia, Dona Julinha andava pela cidade buscando trouxas de roupa que levava no alto da cabeça para lavar no riacho. Era lavadeira durante o dia a Dona Julinha. E das melhores.
    À noite, ela empurrava sua pesada corrocinha de pipoca pelas ruas da cidade até a pracinha. De onde sempre voltava contente em dias de movimento.
    Dona Julinha era corcunda, curvada nas costas, tinha a pele enrugada pelo sol, as mãos ásperas de tanto trabalhar.
    Eu nuca vi Dona Julinha de mau humor. Ou desleixada. Ou cansada. Mesmo doente, ela nunca deixou de lavar suas trouxas de roupa. Ou de ir para aquela pracinha vender suas pipocas deliciosas.
    Dona Julinha estava sempre impecavelmente limpa, penteada, tinha uma educação inacreditável, nunca se exaltava com ninguém, nunca foi vista praguejando ou sendo indelicada.
    Dona Julinha morreu como viveu. Na extrema pobreza. Sem água ou luz, sem descanso aos domingos.
     Dona Julinha se arrastava pela cidade empurrando seu carrinho de pipoca sempre calma e plácida. Eu a via pelas ruas ou mesmo na minha casa buscando roupas para lavar e ficava boquiaberto com tanta elegância e dignidade. E tanta dor.
     Eu me lembrei de Dona Julinha em Londres, quando servia champanhe e canapés para o Nelson Mandela. E não conseguia imaginar como ela não havia sido indicada para o Prêmio Nobel, ou entrado na lista das mulheres mais elegantes do mundo, da Vanity Fair.
     Dona Julinha foi o melhor ser humano que já existiu. 

2 comentários:

  1. tem muitas como ela. Por isso eu acredito pra caramba na humanidade. Mas a gente teima em olhar pra onde os holofotes apontam, como se luz indicasse alguma coisa. Acho que é a síndrome da mariposa.

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  2. Meu pai é outro ser humano incrivel, assim como Dona Julinha. Ja minha mãe, coitada, esta do lado oposto.

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