terça-feira, 9 de dezembro de 2014

   Santo Antônio dos Mistérios. Estranha paisagem. Os pássaros gritam o dia inteiro como se quisessem penetrar qualquer surdez. O céu saturado de azul. O sol brilha tanto que parece alegoria gigante de escola de samba cuspindo raios sobre um sambódromo sem carnaval. E nuvens. Lençóis de algodão aéreos voando alvejados pelo ar.
    As casas são pintadas de cores fortes, que ficam ainda mais fortes sob as luzes que emanam desse céu infernal.
   As ladeiras de Santo Antônio dos Mistérios sobem e descem serpenteando feito rios caudalosos, se derramando convolutas, paralelepípedos em revolta.
   Tudo parece irreal, tudo parece real em excesso.
    O tempo, por aqui, se mede na pele.
    Há morros e matos, cães vadios se espicham preguiçosos e sedentos pelas calçadas, as tempestades, quando se precipitam, inundam as ruas de líquidos viscosos, fluídos corporais de pós coito. Os suores secam rápido, lágrimas evaporam antes de escorrer.
   Não é uma cidade, é uma convulsão epiléptica de cores e sons em descontrole.
   Não há outra escolha em Santo Antônio dos Mistérios. É melhor se render aos elementos antes que eles te invadam violentos, penetrem nas suas células e o destruam em sacrifício inútil. Estranho festival pagão de cores e sons. A fúria de  todos deuses.
    Eu ando pelas ruas da cidade. E sei que quando menos esperar posso derreter em lava colorida, escorrendo fumegante pelo chão. Absolutamente irrelevante. Como o fato de não haver vulcão.
 

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