terça-feira, 6 de janeiro de 2015

   Eu sabia que essa hora chegaria, mas mesmo assim não deixa de ser enfadonho. Não posso mais reclamar de nada. 
   Se resmungo por causa da lentidão da internet, do calor, da temperatura do café ou da cor das almofadas sobre o sofá da sala, há sempre uma criatura para me lançar um sorrisinho satisfeito e mandar aquele velho e batido clichê: "Quem mandou voltar de London Town? Eu bem que avisei!"
   Nós, os que tivemos a audácia de voltar para casa, somos vistos por alguns como loucos, dementes, imbecis. Cometemos o crime hediondo de gostar do Brasil, de nos sentirmos à vontade nos Tristes Trópicos, de apreciar o que aqui se tem de bom.  Como se o metrô de Londres fosse a coisa mais linda e eficiente, como se não houvesse desemprego na Europa, como se existisse serviço decente ao consumidor na Inglaterra, como se lá não houvessem partidos de extrema direita e políticos lunáticos como Mr. Nigel Farage.
   O Reino Encantado da Dona Elizabeth é o paraíso na imaginação de muita gente por aqui.  Go figure. Aliás, qualquer outro lugar parece ser.
    Pois que arrumem as malas e se mudem para lá por algumas décadas e depois me liguem para contar as novidades.
    Eu amo London Town com uma paixão violenta e incurável. Mas vou ficar por aqui mesmo, fico muito confortável, adoro. Não tenho complexos, sou cidadão de qualquer lugar. Acho muito anacrônicas essas comparações absurdas nos dias de hoje, em que o mundo está ficando cada vez menor.
    E vou seguir reclamando aqui, com a mesma intensidade com que maldizia as incoveniências de lá. 
    Quem me aparecer com aquele sorrisinho cretino eu mando ir chupar um pau-de-selfie.

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